Mouchão

Por Rui Falcão*

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No Mouchão tudo é diferente e a vida decorre num ritmo muito mais sereno do que o habitual. Num passe de ilusionismo extraordinário somos transportados ao início do século passado, a um mundo desconhecido mas cativante, desaguando naquilo que parece ser um museu dedicado ao vinho. Pouco, muito pouco mudou na adega do Mouchão desde a sua fundação, em 1901. Aqui faz-se vinho tal como os nossos antepassados o elaboravam, indiferente ao passar do tempo e às novas tecnologias, produzindo vinhos com o carinho e a convicção de que basta respeitar as tradições e a excelente qualidade das uvas e de um terroir único. 

A impaciência e a precipitação nunca fizeram parte do código genético do Mouchão, onde impera uma alma especial, misto de serenidade e tradição, um sentimento de perseverança e profundo tradicionalismo onde tudo é desconforme com as restantes adegas do mundo. A tradição ocupa um local central e fundamental na Herdade do Mouchão. Tudo é feito em respeito a essa tradição. Até o adegueiro, apesar da inesperada juventude, transpira tradição. Afinal, é o terceiro na genealogia familiar a ocupar um lugar que já pertenceu ao seu avô e pai. Juntos perfazem 80 anos de responsabilidade na adega! Até há cerca de dez anos, ainda utilizavam um esmagador manual, movido a força braçal, à manivela. Na verdade, a electricidade só chegou ao Mouchão em 1988, porque nunca foi considerada necessária. A casta Alicante Bouschet predomina e, juntamente com a casta Trincadeira, empresta o perfil de sempre à casa. 

 

 


* Rui Falcão é um renomeado vinho Português jornalista, escritor e educador vinho. Ele também é um juiz em vários concursos internacionais de vinhos.